O trabalho se propôs a compreender a relação entre as ocupa�ções urbanas e as áreas de manancial a fim de elaborar um conjunto de diretrizes que norteasse propostas de interven�ão nos assentamentos precários situados nestas áreas.
Por meio da pesquisa histórica e bibliográfica, foi possível tecer conclusões sobre o impacto das urbaniza�ções e dos demais usos que se instalam na região dos mananciais e verificar que a urbanização destes assentamentos deve ser uma dentre diversas medidas a serem tomadas em direção à recuperação das águas e da preservação e ocupação adequada de seu entorno.
A urbanização dos assentamentos precários, frente ao passivo acumulado de cerca de 1,5 milhão de pessoas residindo nas áreas dos mananciais, tornou-se a única solu�ão viável econômica e socialmente para a requalificação destas regiões, visto a impossibilidade de se deslocar tamanho contingente populacional. Portanto, julgou-se imprescindível a elaboração de um conjunto de diretrizes de interven�ão mais específico ao caso das áreas de manancial, baseado-se e somando-se aos desenvolvidos por Bueno (2000), Denaldi (2003) e demais autores, cuja compilação de ideias e metodologias se debru�ou sobre um contexto mais geral de interven�ão em assentamentos precários.
O tema da urbanização de favelas tem ganhado propor�ções significativas dentro das políticas urbanas nas últimas décadas. De maneira geral, grande parte dos municípios que possuem assentamentos informais em seus territórios, de alguma maneira estão habilitados a realizar este tipo de interven�ão. No entanto, o caminho percorrido para que essa possibilidade existisse não foi curto.
Após a Constituição de 1988, que tratou de temas sociais e respondeu a alguns anseios da população que lutara para ser ouvida e se fazer ouvir, novos rumos puderam ser dados a diversas questões sociais, muitas delas estagnadas antes e durante o período do regime militar.
Muitas lutas foram vencidas, mas no ‰mbito da Reforma Urbana, a batalha teve de se estender um pouco mais. Somente em 2001, com a aprovação do Estatuto da Cidade, demos significativos passos em direção à constru�ão de cidades mais justas e democráticas.
Visando regulamentar os artigos 182o e 183o da Constituição, o Estatuto implementa uma série de instrumentos urbanísticos e dá as diretrizes para a criação de tantos outros, capazes de fomentar importantes transforma�ções na nossa sociedade, marcada pela desigualdade social e pela segregação urbana.
No entanto, apesar da importante ferramenta que agora possuímos em mãos, sua utilização ainda é difícil. A tradição patrimonialista do nosso Estado e sua instrumentalização pelas elites (FERREIRA, 2007), impõe severas barreiras à criação e implementação de políticas públicas que surtam real efeito na diminuição das desigualdades e na democratização do acesso à terra, aos servi�os públicos e, de maneira geral, aos direitos sociais duramente conquistados.
As estruturas sociais e de poder que se articulam no território urbano ditam o ambiente de desigualdade social, urbana e ambiental entre as classes sociais, e ainda que num Estado democrático, muito das estruturas arcaicas de gestão estão baseadas no patrimonialismo, na concentração de renda e de terras, e na segregação espacial entre ricos e pobres.
Dentro deste contexto, o trabalho busca elaborar diretrizes de interven�ão na favela Cruzeiro do Sul, em São Bernardo do Campo. Esta comunidade ocupa área particular inserida na APRM (área de proteção e recuperação de mananciais) da represa Billings e tem sofrido pressões para sua remo�ão, principalmente, devido às condi�ções ambientais de sua localização.
A empresa administradora da represa reclama a retirada dos moradores para que possam realizar manuten�ão e operação da represa, a exist�ncia de uma nascente e um córrego muito próximos às casas, o fato de estar do lado oposto da estrada que passou a ser o delimitador da ocupação na região, a precariedade habitacional de parte das resid�ncias e a dificuldade de controle urbano para impedir a expansão da comunidade foram fatores somados pelo município que oficializou a remo�ão da comunidade na elaboração do PLHIS (plano local de habitação de interesse social) visando resolver o conflito.
Conflito este pela apropriação do espa�o urbano e pelo direito à moradia, que neste caso bate de frente com a visão conservadora que tem sido dada à questão ambiental, à interven�ão sobre propriedade particular do terreno e aos poucos avan�os feitos em relação à manuten�ão e controle da expansão urbana sobre áreas ambientalmente frágeis.
No entanto, ainda que o desenho possa ser responsável por mais qualidade urbana e ambiental nos assentamentos e na cidade, no trabalho de pesquisa desenvolvido para este projeto e para os demais dos quais tive a oportunidade de participar, ficou claro que a luta a ser travada antes de colocar o lápis no papel é o maior desafio imposto a nossa sociedade, e não somente aos assentamentos precários, mas em especial a eles.
Desta maneira, o trabalho apresentado visa embasar tecnicamente as solu�ções discutidas e elaboradas de acordo com os anseios e demandas da comunidade, a fim de se reafirmar que, sim, é possível repensarmos as cidades e seus conflitos de maneira participativa, colaborativa e inclusiva, com respeito ao meio ambiente, mas principalmente, com respeito ao ser humano.